quarta-feira, 13 de junho de 2012

Os Colonizadores (Jesuítas, Criadores de Gado e o Estado Luso-Espanhol), a Conquista de Sergipe e a Fundação de São Cristóvão



Kéfus Ibrahim Santana Cardoso

O Brasil desde o início de sua colonização foi território de grandes extensões; por este motivo, pelas poucas condições financeiras da Coroa Portuguesa em coloniza-lo e pela preocupação do rei português D. João III em perder essas terras para outros pretendentes, este decide dividir o território em 15 partes que chamaram-se Capitanias Hereditárias, cada uma destas possuía um dono chamado “donatário”, este por sua vez tinha o dever de proteger e garantir o progresso das terras que haviam sido posto em seu comando.
A história da colonização de Sergipe inclui-se nesse contexto, pois, as terras sergipanas faziam parte da capitania da Bahia de Todos os Santos, e como todas as outras, esta possuiria um donatário, “foi assim, [...], que o Rei de Portugal, D. João III, em 05 de abril de 1534, fez doação de 50 léguas de terras, contadas desde a ponta da baia de Todos os Santos até a foz do rio S. Francisco, ao fidalgo Francisco Pereira Coutinho” (MONTALVÃO, 1916, p. 15-16)1, que posteriormente por ter se desentendido com os índio locais, foi morto e devorado pelos Tupinambá. Com isto, as terras que lhes foram dadas passaram a ficar sob comando do seu filho Manoel Pereira Coutinho “que, por não dispor de elementos necessários, cedem à coroa as ditas 50 léguas de terras doadas, nas quais estava incluindo o território sergipano”. (MONTALVÃO, 1916, p. 15-16)2.
Observa-se então que os índios não tiveram contato com os colonizadores só em 1590, mas bem antes, isso fica mais claro quando os portugueses percebem que a conquista e colonização de Sergipe é necessária. O Prof. Dr. Antônio Lindvaldo Sousa cita em um dos seus materiais alguns pontos que visam o desejo dos portugueses em conquistar Sergipe:
1. Estabelecer a continuidade territorial entre a Bahia e Pernambuco;
2. Eliminar a influência francesa no Rio Real;
3. Arrebatar às tribos tupinambás a região entre o Rio Real e o São Francisco, e garantir sua posse pelo povoamento e pela ocupação efetiva do solo.                                                (SOUSA, 2007, p. 209)3.
Com tais propósitos, os portugueses em 1575 enviam os padres Gaspar Lourenço e João Salônio para perto do rio Real com o objetivo de catequisar os índios; “Ao evangelho e não às armas; à paz e não à guerra, entregou-se à conquista da nossa capitania” (FREIRE, 1977, p. 00)4. E foi aí que atuaram, como diria Pires Wynne no seu livro História de Sergipe, os “inteligentes pioneiros, penetradores dos sertões e semeadores da fé”.
Porém, Thetis Nunes afirma que antes de 1575, essas terras teriam sido ocupadas por colonos: “Extravasando do Recôncavo Baiano, a expansão baiana caminhou em busca do Rio Real com a doação, em 1563, a Tomé de Souza, de oito léguas por costa e cinco para o sertão, terra depois vendida a Gárcia d`Avila”(Nunes, 1996, p. 15)5.
Não demorou muito para os jesuítas conquistar a confiança dos tupinambá, “conseguindo a colaboração dos grandes caciques Serigi, Surubi e Aperipê” (NUNES, 1996, p. 226)6, gerando uma relação amistosa, fato que facilitou muito o seu trabalho nesta região.
“Vieram do Rio Real muitos indios principaes das aldeias comareans que estão naquellas partes: quarenta, cincoenta e sessenta leguas desta cidade, todos em grande desejo de levar padres que os ensinassem as cousas de sua salvação” (FREIRE, 1977, p.71)7.
Tempos depois, D. Sebastião, rei de Portugal, ordena ao governador-geral do Brasil, Luís de Brito, que o território sergipano fosse conquistado, com isso, os portugueses fizeram invasões e ataques em algumas aldeias daquela região provocando a fuga dos índios locais. Segundo Lenalda Andrade Santos e Terezinha Alves Oliva na obra “Para conhecer a História de Sergipe”, interpretam este fato com “pretexto para que as tropas do governo atacassem os índios provocando muitas mortes e a escravização daqueles
que não conseguiram fugir.” (SANTOS e OLIVA, 1998, p.30)8.
Foi com esta interrupção ao trabalho de catequese que findou-se a tentativa de conquista dos índios através da religião. Com isto e o abandono português naquela região, “os índios puderam voltar a viver livremente. Assim, continuaram a receber a visita de naus franceses, a sofrer os ataques de colonos vindos da Bahia e também a revidar, atacando e destruindo suas propriedades.” (SANTOS e OLIVA, 1998, p.30)9.
Enquanto tudo isso acontecia em solos sergipanos, as capitanias da Bahia e de Pernambuco almejavam cada vez mais esse território, porém, seria preciso que os índios dessa região fossem dominados e obrigados a trabalhar nessas terras que seriam tomadas. Para tanto, os portugueses, em 1587, conseguiram a aprovação da corte portuguesa em guerrear contra os índios com a nomenclatura de Guerra Justa, dando-lhes o direito de matar e aprisionar os que sobrevivessem às lutas.
Nesse período, Portugal estava sob domínio da Espanha, formando a União Ibérica, e foi no final de 1589 que Cristóvão de Barros, a mando do rei Luso-Espanhol Felipe II, contando com a força de um grande exército saíram da Bahia para lutar contra os índio da futura capitania de Sergipe Del Rey.
Mais uma vez os materiais do Prof. Dr. Antônio Lindvaldo Sousa, deixa claro sobre o assunto:
A guerra contava com a presença de vários portugueses, baianos, pernambucanos e mamelucos. Ainda segundo Whynne, havia 28 nomes de destaque nessa guerra, dentre eles o todo poderoso dono da Casa da Torre.
A base da guerra foi a “Casa da Torre”, do famoso Garcia d’Ávila. Diversos pesquisadores assinalam a presença de 3.000 brancos, 1.000 mamelucos e 1.000 índios e muitos outros gentios que foram capturados e postos a serviço da guerra. A organização contava na vanguarda com Antonio Fernandes, e na
retaguarda com Sebastião de Farias. Além destes comandantes, havia as lideranças dos irmãos Álvaro Rodrigues e Rodrigues Martins. (SOUSA, 2007, p. 209)10.

Por mais que o Cacique Baepeba incentivassem os seus índios, estes não conseguiram resistir ao ataque. No dia 1º de Janeiro de 1590, com um número de 2.400 índios mortos, 4.000 escravizados e mais tantos outros que fugiram para o sertão, Cristóvão de Barros vence a guerra. Com isto funda-se a capitania de Sergipe Del Rey abrindo caminhos entre Bahia e Pernambuco.
Acerca disso comenta a pesquisadora Lilian da Fonseca Salomão: “Sergipe permaneceu uma espécie de dobradiça entre duas capitanias importantes, Bahia e Pernambuco. Os rebanhos baianos utilizavam esse espaço para pastar e deslocar-se”. (Salomão, 1996, p. 111)11.
E conclui Maria Gorete da Rocha Santos: “Os objetivos da Coroa eram alcançados.” (SANTOS, 1995, p. 88)12.
Por outro lado Beatriz Gois Dantas mostra o lado dos vencidos que intensificaram, por interferência dos colonos, as guerras inter-tribais, foram aprisionados e até abusados sexualmente por aqueles que agora ali dominavam.
A Bahia neste período desenvolvia-se intensivamente no tocante ao cultivo da cana e ao fabrico de açúcar, com isto, precisava cada ver mais da força animal que servia para transportar as cargas de cana do canavial aos galpões, para fazer girar as moendas de onde se estraria o caldo da cana transformando-se posteriormente em açúcar, também para levar este açúcar para os portos de embarque e, por fim, fornecer carne como alimento para os moradores. Então, tudo isto serviu de estimulo para que as fazendas de gado se espalhassem pelo território sergipano. Mas vale ressaltar que não foi apenas a procura de gado pela Bahia e Pernambuco que fizeram de Sergipe um grande criador de gado, as boas qualidades dos pastos também foi fator que contribuiu para o crescimento da pecuária sergipana.

Foi através daí que aconteceu a expansão do povoamento em direção ao sertão e agreste sergipano. Foi ainda a pecuária a atividade mais importante de Sergipe até o século XVIIII, fornecendo gado não somente as regiões vizinhas, mas também aos engenhos que surgiam em Sergipe, além de abastecer regiões que cresciam, como Propriá, Estância, Santo Amaro, Laranjeiras e a capital São Cristóvão.
A pecuária foi também uma atividade que influenciou no surgimento de novas povoações, como por exemplo: Curral de Pedras (Gararu), Campos do Rio Real (Tobias Barreto), Campo do Brito, Malhador, Porto da Folha, Nossa Senhora da Glória, Riachão do Dantas, Aquidabã e Simão Dias.

Observa-se estão, que a pecuária foi uma atividade de suma importância para formação sergipana, assim Lenalda Andrade Santos e Terezinha Alves Oliva dizem: “foi a pecuária a atividade que forneceu a base para a organização da economia e da sociedade sergipana.” (SANTOS e OLIVA, 1998, p.32)13.
Foi também nesse período de pós-conquista de Sergipe (a partir de 1590) que o conquistador e primeiro Capitão-Mor de Sergipe, Cristóvão de Barros, funda o Arraial de São Cristóvão para ser sede do governo, passado a ser chamada depois de Vila de São Cristóvão e passa a distribuir lotes de terras, as chamadas “sesmarias”, para aqueles que ali quisessem fixar residência.

Tempos depois, Cristóvão de Barros deixa a capitania e escolhe Tomé da Rocha como o novo Capitão-Mor de Sergipe, este por sua vez começa a criar gado e a plantar cana-de-açúcar na região fundando finalmente a cidade de São Cristóvão.

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1, 2 MONTALVÃO, Elias. Meu Sergipe. Aracaju: Impressa Oficial, 1916.

3 SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de História de Sergipe I. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2007.
4 e 7 FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe. Petrópolis: Vozes/Governos do Estado de Sergipe, 1977.     
5 e 6 NUNES, Maria Thetis.   Sergipe colonial II.   Rio de Janeiro:  Tempo Brasileiro,    1996.

8 e 9 SANTOS, Lenalda Andrade e OLIVA, Terezinha Alves. Para conhecer a História de Sergipe. Aracaju, Opção Gráfica, 1998.
10 SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de História de Sergipe I. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2007.
11 SALOMÃO, Liliam da Fonseca. A lenta penetração portuguesa no Brasil. O caso de Sergipe d’El Rey, território marginal. Cadernos UFS - História. São Cristóvão: DHI/PDPH/EDUFS, 1996. p. 105-115.
12 SANTOS, Maria Gorete da Rocha. Sergipe: Geografia/História. I. Título. São Paulo: FTD, 1995.


13 SANTOS, Lenalda Andrade e OLIVA, Terezinha Alves. Para conhecer a História de Sergipe. Aracaju, Opção Gráfica, 1998.
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